Produção de texto

Recursos utilizados na produção textual dos anos iniciais do Ensino fundamental


Cristiane Pedrosa
Professora de Atendimento Educacional Especializado


Se por TIC – Tecnologias da Informação e Comunicação, compreendemos todos recursos de intervenção para a mediação da aprendizagem, esses recursos podem ser tecnológicos, mas nem sempre serão digitais. Há tecnologia também na produção de quaisquer recursos não digitais utilizados para o fim da aprendizagem e é sobre recursos não digitais que trataremos neste artigo.
Além disso, definimos tecnologia por um produto, desenvolvido a partir de um embasamento científico, que envolverá um conjunto de metodologias, instrumentos e técnicas para atingir um fim. Assim, nosso artigo desenvolver-se-á em torno de metodologias, instrumentos e técnicas utilizados para favorecer a produção textual nos Anos Iniciais do Ensino Fundamental.
Objetivamos apresentar propostas para Produção de Texto e sua sistematização filosófico-metodológica em uma tessitura que alinhava prática e teoria. São relatos do fazer docente cujo objetivo é a aprendizagem significativa e prazerosa. Aprendizagem essa, que depende de um alvo pragmático bem delineado, mas não pode prescindir dos aspectos humanos imbrincados na relação docente-discente e discente-discente de ensino-aprendizagem.
A escrita criativa apresentada, ora a partir de jogos, ora de reconto ou ainda de jogos teatrais, visa ao encantamento e, só depois, à apropriação das competências relacionadas ao registro escrito, por acreditarmos que uma aprendizagem efetiva ocorre a partir de um envolvimento emocional. Além da emoção, valorizamos a aprendizagem ativa, dialógica e a interdisciplinaridade sempre cerzida pela literatura.
Pretendemos, assim, delinear um mapa que possa servir como roteiro de uma práxis lúdica, sensível e coerente. Útil para a atividade docente de iniciantes e para oxigenar a criatividade dos mais experientes a partir de propostas nas quais os aprendentes são o centro do processo de aprendizagem.
Lembramos que a experimentação é irrepetível e surpreendente, cabendo ao docente que caminha tendo por motivação a construção reflexiva do conhecimento o necessário embasamento teórico para alinhavar as propostas que surgirem sempre dando ênfase à valorização do discurso da criança, pois esse é o material que servirá de fundamento para construção dos textos dos aprendentes e os auxiliará a se inscreverem como produtores do próprio conhecimento.
Mas, como se alinha teoria e prática? Esse é um nó difícil de desatar nos primeiros contatos do licenciando com a sua turma. Quando a porta se fecha e o professor vê-se pela primeira vez à frente de uma turma, vêm o frio na barriga, a incerteza e o receio: como lidar com a diversidade da sala de aula, conciliando conteúdo, controle e aprendizagem eficiente?
Na maior parte dos textos que experimentamos na graduação aprendemos a distância entre os textos filosóficos e os pragmáticos. Por isso nossa vontade em construir uma discussão alinhavada com descrições das práticas, seus prós e contras, suas possibilidades. Muito se fala a respeito de interdisciplinaridade, mas, como ela funciona? É possível?
As principais bases teóricas que alinhavam nossa proposta são Paul Zumthor, com A Voz e A Performance como expressões artísticas e criativas, que ao alinharem-se com as propostas de ensino da grande dama da Educação brasileira, Cecília Meireles, nos trazem possibilidades de um processo de ensino-aprendizagem prazeroso, lúdico e eficaz, na medida em que a cada passo de seu caminho a Neurociência (Inteligência Emocional – Daniel Goleman) aproxima-se ainda mais do afeto e do prazer como ferramentas de aprendizagem significativa.
À Zona de Desenvolvimento Proximal, proposta por Vigotski, aliamos cuidado com o outro (BOFF) e a necessidade de comunicar-se com eficiência: Como falar para ser bem compreendido? Quem ainda não palpitou na cerzidura do nosso texto? Qual a importância de ouvir a cada um em seu processo de experimentação criativa?
Além disso, no que consistiria a arte de escrever? Quais seriam os conteúdos imprescindíveis para a fase inicial da Educação Fundamental? Frei Betto (2017) nos conta: “Escrevo para ser feliz. Bartheanamente falando, para ter prazer.” E como imergir a criança no prazer e na fruição literária da qual nos falam BARTHES (2013) e BETTO (2017), se não a partir das histórias?


COMO SE FAZ?

Em nossas oficinas usamos a narrativa como foco principal e, porque aprender a escrever se aprende escrevendo, escrevemos juntos, na montagem de textos coletivos. A passagem pela construção coletiva é muito importante para que a criança consiga transpor a ponte entre ‘como se fala’ e ‘como se escreve’. Nesse caso, a estrutura, a paragrafação a ortografia e a organização cabem ao docente, mas a criança escolhe o que irá escrever.
Partimos de livros de imagens, onde a criança descreve o que vê e imagina o que não está presente na imagem, dando vasão à sua criatividade. Os nomes das personagens e os títulos são escolhidos por votação e todos querem dar ideias, o texto é primeiro escrito na lousa e depois as crianças se apropriam copiando em seus cadernos.
Outra ferramenta para o trabalho com textos coletivos tem como ponto de partida as histórias cujo fim pode ser modificado, ou, com o final que não é mostrado, mas imaginado por eles e também com as histórias misturadas, onde as personagens de histórias clássicas se encontram e constroem novas histórias. Em algum momento, todas as atividades realizadas como prática textual coletiva serão usadas para a escrita individual.
A tecnologia que mais favoreceu o nosso trabalho nas oficinas de narrativas foram os ‘jogos de contar histórias’. Esses jogos, comprados em lojas de brinquedos ou em livrarias, consistem em cartas com elementos que devem fazer parte das histórias, tais como: personagens, ações, objetos, lugares, obstáculos, qualidades, sentimentos.
As atividades podem ser feitas em grupo ou de forma individual e em alguns momentos é necessário que o professor disponibilize os conectivos para que possam trazer estrutura às construções textuais. Os conectivos podem ser utilizados como cartões inseridos no jogo pelo professor (eu usei palitos de picolé coloridos com as palavras escritas), devem ser trabalhados também oralmente.
É importante que as crianças tenham tempo para elaborar a narrativa oralmente, que analisem a coerência do discurso dos seus amigos e que troquem informações a respeito da clareza do que foi dito. Aprendem, assim, os elementos necessários para a clareza e a coerência textual, a seguir constroem seus textos. Os textos também são partilhados e analisados pelo grupo, que constrói, a partir dessas práticas, não só habilidades de criticidade literária, mas também de autoria e de relações respeitosas.
As atividades de produção literária, em oficinas e rodas de conversa constituem fonte de partilha de conteúdos não só literários, mas também podem ter como foco outros conteúdos pedagógicos, de qualquer outra disciplina. Podemos usar os textos científicos das experiências em laboratório, as discussões a respeito de notícias que estão na mídia ou questões relacionadas aos conteúdos de Estudos Sociais e até mesmo as regras das operações Matemáticas.
A escrita, quando não é vista como um fim em si mesma, toma a dimensão de toda a aprendizagem, contextualiza, conceitua, delimita e expande as possibilidades de aquisição dos conteúdos em seus diversos gêneros. Há uma tecnologia da estrutura textual que pode ser bem compreendida a partir da experimentação contínua da produção, da reelaboração e do aprimoramento do próprio texto.
Sugerimos diversos jogos como recursos lúdicos para a produção textual, lembrando que o jogo/livro apresenta características interessantes como um atrativo em sua apresentação pela cor, textura e imagens, contudo, não podemos prescindir das características de mediador do docente no processo de ensino-aprendizagem para intervir e direcionar cada atividade. Indicando rumos e adaptando os jogos de acordo com os níveis de aprendizagem de seus grupos de estudos e as habilidades que serão desenvolvidas em cada um de seus encontros.

REFERÊNCIAS:
BARTHES, Rolland. O prazer do texto. São Paulo: Perspectiva, 2013. 6.ed (Elos;2).
BETTO, Frei. Ofício de escrever. Rio de Janeiro: Anfiteatro 2017.
GOLLEMAN, Daniel. Inteligência emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteligente. 2 ed. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
_________________ . A arte da meditação. Rio de Janeiro: Sextante, 2018.
GOLLEMAN, Daniel & SENGE, Peter. O foco triplo: uma nova abordagem para a educação. Rio de Janeiro: Objetiva, 2015.
HARRIS, Jacqueline. Como escrever um livro: atividades divertidas para despertar o autor que existe em você. São Paulo: Publifolhinha, 2017.
LÔBO, Yolanda. Cecília Meireles. Recife: Fundação Nabuco, Editora Massangana, 2010. (Coleção Educadores.)
PACHECO, José & PACHECO, Maria de Fátima (orgs.) A avaliação da aprendizagem na Escola da Ponte. Rio de Janeiro: WAK Editora, 2012.
TEBEROSKY, Ana & TOLCHINSKY, Liliana (orgs.). Além da alfabetização: aprendizagem fonológica, ortográfica, textual e matemática. São Paulo: Editora Ática, 2006.
VICKERY, Anitra. Aprendizagem ativa nos anos Iniciais do Ensino Fundamental. Porto Alegre: Penso, 2016.
VIGOTSKI. Imaginação e criatividade na infância. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2014. (Textos de Psicologia.)
ZILBERMAN, Regina (ORG.) Et Alii. Leitura, perspectivas interdisciplinares. São Paulo: Editora Ática S.A. 1988. Série Fundamentos.
ZUNTHOR, Paul. A letra e a voz: a “literatura” medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
_____________ . Performance, recepção, leitura. Cosac Naif Portátil. São Paulo: Cosac Naif, 2014.

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